quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

A inviabilidade das cidades brasileiras

    Conheci a Vila da Light aqui em Cubatão antes de conhecer Brasília (claro). Ambas me encantam pela forma como os espaços naturais e humanos se interpenetram e harmonizam. Sonhei sempre com um modelo de cidade assim, arejado, claro e devidamente sombreado pela vegetação natural, refrigerado pelos imensos gramados e com quintais repletos de árvores frutíferas.

    É lamentável como uma coisa tão óbvia pode ser tão impossível!
Vista da Vila da Light, com a Serra do Mar e as adutoras da
Usina Henry Borden ao fundo.


    Um modelo de urbanização humano, na melhor acepção desse termo, é totalmente inviabilizado pela propriedade privada da terra. A especulação que esse tipo de propriedade permite maltrata as cidades e portanto quem nelas vive. Favelas, cortiços, várzeas destruídas, trânsito impossível de consertar. Problemas climáticos (as ilhas de calor urbanas determinam a formação dos temporais que destroem os espaços e propriedades urbanas) também são efeitos que poderiam ser evitados se o planejamento viesse antes da especulação imobiliária.

    Ninguém comenta, mas esse é o coração dos males das nossas cidades. E como a população vive cada vez mais nas cidades, é de se esperar que o sofrimento aumente.

domingo, 18 de maio de 2014

O mito da engrenagem social

Desde a antiguidade se recorre às parábolas, às analogias e às metáforas para expressar ideias. Até hoje se faz isso, inclusive no meio acadêmico-científico, pois é um recurso linguístico valioso. Porem existem problemas: às vezes as analogias são levadas ao pé da letra e extrapolam os limites para os quais foram criadas.
Assim, por exemplo, há a metáfora da engrenagem social que já alçou a condição de mito, pois como os mitos, se tornou uma explicação meio genérica da origem das coisas.
Graças e essa imagem, hoje em dia as pessoas imaginam que para o Estado e consequentemente a sociedade funcionarem bem, basta "azeitar" corretamente essa engrenagem, fazendo com que cada componente da máquina funcione e cumpra direitinho o seu papel. Será que ninguém se pergunta "como assim, o seu papel?". Afinal, ao contrário de quando em tempos medievais, as pessoas não nascem destinadas a ser isso ou aquilo. E se a burguesia tem um crédito histórico, com certeza esse é um deles! Viva a burguesia e o liberalismo! Ao menos naquele momento da história.
Então, me preocupa muito que as pessoas suponham que cada um tem seu lugar, por extensão um lugar determinado e fixo na sociedade. Essa simplificação grosseira do mundo é perfeita para aquelas mentes que sonham com o mundo perfeitinho do fascismo, onde tudo se encaixa e todos cultuam o grande líder.
Eu não curto nada essa ideia.
E que fique claro, o Estado não é uma máquina, muito menos automática. É preciso tomar conta da política e se capacitar para isso.

Um problema com assumir o poder

A nossa compreensível irritação com a corrupção não combina com nosso incompreensível desprezo pela cidadania. É como se as duas coisas estivessem divorciadas! Enquanto a grita geral contra a corrupção ocorre em surtos, a miséria é crônica. Enquanto alguns contestam o direito ao voto dos analfabetos (como se estes não fossem cidadãos) outros ainda atacam a "obrigatoriedade" (multa de R$ 3,50) de participar dos pleitos.
E eu continuo achando que as pessoas estão mais focadas nos sintomas que nas causas de nossa miséria, o que me faz pensar que há, por baixo disso tudo, uma imensa preguiça de assumir o poder, que é o que se exige em uma democracia de verdade.
Há uma tendência entre as pessoas "ilustradas" de apostar mais na segregação do que no acolhimento. Falta generosidade, como se estivéssemos realmente vivendo no limite da fome e da sede, como em um deserto. Isso não é verdade! Tem espaço para todos nesse país, há o que comer, o que vestir, onde morar. O verdadeiro mal é o mito de que não há recursos. E há que se prestar atenção em quem anda propagando esses mitos, porque as intenções obviamente não são boas.

terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Chega de mistificar

Sempre tive horror a transformar política em religião, partidos em igrejas. Uma política séria, que promova o progresso material e cultural não pode se basear em discursos messiânicos e salvadores da pátria. Quando a esquerda e a direita promovem política nesses termos, estão basicamente se igualando!

Estamos em tempos de liberdade de opinião e é inaceitável que, sob qualquer pretexto, se argumente a favor de governos autoritários. Os anos 1930, com seu totalitarismo universal, já passaram. Todas as experiências daquela época estão superadas, tanto do lado direito quanto do lados esquerdo. Ninguém mais quer ver Mussolini, Hitler, Hiroito, Stalin, Mao, ou qualquer liderança ultracarismática substituindo a consciência política dos indivíduos. Todo o fanatismo daquela época foi superado e todas as construções políticas daquela época ruiram.

Não vou cometer o erro de colocar formas políticas tão diferentes no mesmo saco, é preciso marcar diferenças fundamentais: enquanto o nazifascismo promove deliberadamente uma política de genocídio e eugenia, o bloco socialista passa décadas promovendo um controle absurdo sobre a opinião pública e se perde em guerras civis duríssimas. Duas construções bem diferentes em termos econômicos com visões antagônicas sobre papel do trabalho e do trabalhador na direção do Estado, acabam se aproximando pela redução da liberdade individual em nome do bem comum. E desse mal felizmente não sofremos mais, nem precisamos voltar a isso.

Infelizmente boa parte das pessoas ditas educadas e instruídas acredita no autoritarismo ao se deparar com um suposto caos e crise moral. Na verdade, não há crise moral, ha preguiça de assumir o papel de cidadão e tomar posse da parcela de poder que temos. O elogio da ditadura que ouvimos nos dias de hoje é um reflexo dessa preguiça. É mais fácil entregar nosso destino nas mãos de algum iluminado líder (preferencialmente militar) do que participar ativamente da condução de nossa sociedade.

Há também um desconhecimento, que gera desrespeito, sobre a condição "do outro". Há visível má vontade de uma sub-elite a qual chamamos de classe média, em relação ao grosso da população brasileira que só recentemente se viu capaz de participar da festa do consumo. Vale lembrar que boa parte da classe trabalhadora sequer conseguia trabalhar e agora pode, através do consumo, estimular uma economia estagnada há décadas e dessa maneira passar a integrar o mundo da produção.

Essa incapacidade de compreender a condição da maior parte do povo brasileiro contribui muito para o surgimento de uma mentalidade reacionária que faz fermentar o antigo ódio de classes. Esse ódio aparece na eugenia nem tão suave do discurso meritocrático e da visão gerencialista sobre o Estado que quer substituir a política (que pode ser desagradável, mas é fundamental) pela administração empresarial do Estado. Isto é uma bobagem imensa, pensem bem! A boa administração é fundamental, mas não é ela quem decide as prioridades e necessidades da nação como um todo. Isto vem das discussões políticas das quais os cidadãos precisam participar em todos os níveis.

A ansiedade de ver a nação e o Estado funcionando corretamente afeta nossa capacidade de raciocinar sobre o que isso significa! O que vem a ser um funcionamento correto do Estado e da sociedade? Essa é uma grande discussão política da qual todos nós precisamos participar e o único ambiente onde isso pode ser feito é o ambiente democrático. Lutar contra a democracia é rigorosamente sabotar a construção da sociedade que realmente atende às necessidades da nação.

A democracia precisa ser defendida com todas as forças e isso significa também que é necessário ampliá-la trazendo novos e maiores direitos para aqueles que jamais tiveram acesso a eles. Impedir isso é sabotar o Brasil, mantendo a velha senzala da pobreza intacta.

sábado, 11 de maio de 2013

O que fazer com os estádios depois da copa?

Depois da decisão da justiça carioca sobre a não muito bem disfarçada privatização do Maracanã, vêm algumas ideias à minha cabeça.

Uma delas é a seguinte: com tanta desigualdade social, não parece muito inteligente ampliar essa desigualdade entregando recursos públicos para a rica iniciativa privada.

Então, por que não trazer organizações populares para a administração desses espaços, em conjunto com as administrações municipais? Fico imaginando o quanto algumas ONGs lucrariam com isso, instituições que atuam em vários seguimentos, desde meio ambiente até desenvolvimento social, urbano e promoção de saúde. Imaginem a AACD promovendo eventos no Maraca! Imaginem as associações de favelas levantando recursos para a promoção das necessárias reformas urbanas no Rio!!!

Nada de ricaços enchendo ainda mais a barriga de dinheiro. Vamos dar uma chance às necessidades reais do povo brasileiro! Não é uma boa?

terça-feira, 13 de novembro de 2012

Então sou um dinossauro comunista?


Para quem pergunta o porque de eu defender algo tão ultrapassado como o socialismo, preciso responder que o socialismo está tão obsoleto quanto a fome, as guerras e a desigualdade. Acredito que o problema que se põe não é se ele funciona ou não funciona como sistema político - na real, será que ele realmente existiu como tal? Há quem duvida e tem bons argumentos que sustentem essa afirmação.

O problema, creio, tem a ver com o modo como organizamos a nossa produção.

Ao defender o socialismo não estou defendendo uma utopia de perfeição inatacável. Defendo muito simplesmente uma economia onde não só o trabalho seja dividido entre os componentes da sociedade, mas também os frutos desse trabalho. E não precisa ser de forma exatamente igual não! Mas é preciso que seja minimamente justa, coisa que não vai ocorrer no reino da liberdade sustentada a dinheiro.

Com relação ao sistema político, é claro que ele tem de ser democrático. Mas é preciso lembrar que "democracia" sustentada a dinheiro só atende a quem é rico. O resto é enrolação e promessas. A democracia minimamente decente se sustenta em uma economia que atenda aos anseios da sociedade como um todo e que funcione sob o controle desse todo, não necessariamente sob a tutela do Estado.

Mudando um pouco a direção do discurso, advirto meus colegas vermelhos que o endeusamento das lideranças tradicionais não nos ajudará a sobreviver como alternativa política. Há uma série de problemas reais no que restou do antigo projeto socialista e eles precisam ser tratados sem sombras de dogmas nem preconceitos.

Acho muito engraçado quando um militante tenta atribuir alguma dignidade à prostituição cubana. É prostituição como toda é! As moças dão para sobreviver! Há que se questionar se elas tem ou não alternativas superiores a esse tipo de trabalho, porque não se pode questionar o direito ao uso de seu próprio corpo para evitar encarar a miséria.

Nós sabemos quais são as causas dessas "distorções", mas também é necessário reconhecer que não se pode moldar as pessoas a um projeto quando ele objetivamente não está se sustentando. Me parece que o governo cubano tem certa consciência disso ao tratar a prostituição com menor rigor que outros "crimes".

Então, fica aqui minha conclusão: se por um lado a direita não tem condições reais de garantir um desenvolvimento sustentável para o conjunto da sociedade, uma esquerda conservadora também não terá! É preciso reconsiderar as antigas estratégias consagradas por Lênin e seus contemporâneos, priorizando a discussão e a prática política democrática, ao invés de propagar revoltas à moda antiga.

domingo, 7 de outubro de 2012

O "discurso oculto" ou: como esconder fatos atrás de fatos.

Um dos horrores da política brasileira, motivo de enorme vergonha para os cidadãos atentos da classe média, é a corrupção. Nós brasileiros já estamos até meio anestesiados com tanta notícia ruim, que vem de tempos imemoriais.

O que não é dito: a corrupção é útil para manter o status quo. Não se trata meramente de uma ação ilícita, mas é uma lei natural da economia de mercado no mundo subdesenvolvido. É uma lei que não pode ser escrita, mas que é fundamental para manter o tipo de poder que se desenvolveu nas periferias do capitalismo.

Então, a conclusão óbvia é: se vencermos a corrupção, vencemos o atraso político e econômico e finalmente nos tornamos uma nação desenvolvida na sua plenitude.

Eu arriscaria dizer que é justamente ao contrário. Num país sem distribuição de renda justa, sem uma economia capaz de prover sustento para todos, jamais se desmontará a corrupção. Uma nação de miseráveis que precisa literalmente vender o jantar para comprar o almoço, não pode reagir a uma elite que sobrevive pela corrupção. Uma nação de miseráveis não tem como reagir.

E hoje, no Brasil, nunca se falou tanto em corrupção. É de se admirar! Mas também é para se preocupar, porque não houve uma transformação essencial na estrutura da economia brasileira, ela continua muito concentrada, muito dependente de exportação, excessivamente dependente de capital estrangeiro. Nada contra esse capital em si, o problema é a dependência financeira, num momento de crise bancária internacional.

Aí está um aspecto interessante: ninguém está realmente focando no núcleo do problema, que é a maneira como a economia brasileira se integra à economia mundial, em quais termos e condições.

O foco do momento é um caso de corrupção governamental que atribui um papel de protagonista a um aspecto secundário da política e da economia brasileiras.

Fica a pergunta: depois que este circo for embora, o que ficará no lugar? Algo mais essencial do que uma simples troca de moscas sobre a administração do Estado? Essa é uma questão muito importante pois ao contrário do que se diz por aí, estar no governo não é o mesmo que estar no poder.